quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

dramas da vida de um casal


O meu homem é um "fadinho do lar" e adora economia doméstica.
Ele tem grandes monólogos dissertações para comigo sobre como o custo de vida aumentou ou sobre como conseguiu poupar dois euros (dois euros são quatrocentos escudos, sic) ou sobre o ter trazido uma garrafa de uísque a metade do preço porque tinha não sei quanto em cartão.
Eu compreendo que ele precise de ter com quem partilhar estas coisas, mas eu vivo sozinha com uma gata, as minhas compras em grandes superfícies comerciais são mensais (nalguns casos trimestrais) e resumem-se a papel higiénico, algodão, detergentes, cereais, bolachas de água e sal, ração e iogurtes.
Tenho um mini mercado ao fundo da rua onde compro fruta e outros itens ocasionais e a loja do monhé vende os artigos de higiene mais baratos.
E claro que eu jamais iria dum supermercado ao outro para poupar quatrocentos escudos dois euros.
(vê-se mesmo que não usa saltos altos)
Mas esta mania de discutir assuntos domésticos comigo está a agudizar-se e agora já se estende aos cozinhados.
Desde que estamos juntos que as coisas são simples: ou ele cozinha ou vamos jantar fora.
E eu sou de boa boca (ele é que é mais esquisitinho) e nem sou exigente com o restaurante, gosto de ir lá ao lado de casa comer peixe grelhado no Manel dos Frangos.
(o Manel dos Frangos tem sala de refeições e peixe na grelha)
Sucede que este ano um cliente ofereceu ao meu homem um bacalhau com cerca de metro e meio (foi épico porque ele faz meio percurso de carro e o resto de metro até ao emprego, portanto veio no metro à hora de ponta com um volume de metro e meio a tresandar a bacalhau...).
O bacalhau vinha com instruções de utilização e tivemos de ir ao IKEA comprar uma caixa de plástico onde coubesse o fiel amigo, porque este tinha de estar de molho 3 dias e o único lugar onde cabia era na banheira e não dava jeito.
Com tanta abundância (e cheiro) eu, que tinha enjoado bacalhau e não comia o dito há coisa de dois anos, disse-lhe para fazermos bacalhau para a ceia de natal.
Ele adorou a ideia, mas a partir daí a minha vida foi um desassossego.
Ligava-me a toda a hora para discutir receitas de bacalhau e se achava que acompanhasse com isto ou com aquilo e o grau de acidez do azeite e o escambáu, e eu quase a dizer olha vamos comer outra coisa qualquer.
E é assim que um inusitado presente de natal afeta a harmonia do lar.
Logo eu, para quem a cozinha é a divisão onde está o frigorífico e as coisas da gata e as máquinas de lavar e nem sei se o meu fogão ainda funciona!
Há muito, muito tempo eu cozinhei, porque ou era isso ou arroz de atum todos os dias.
E foi uma fase gira da minha vida, até nem me saía nada mal.
Mas depois a frase mais proferida pelo gosma meu ex-marido era "o que há para o jantar?"  e claro que a resposta não era cozido nem assado nem bonita de se repetir.
A verdade é nunca mais cozinhei nem tenho vontade.
Com tanto restaurante e comida de microondas no mundo, parece-me uma perda de tempo e os amigos deixaram de aparecer "por acaso" perto da hora do jantar aos domingos.
(imagino que enjoaram pizza, acontece)



17 comentários :

  1. Ora aqui está um bom texto para ler pela manhã... Miss Scarlet sempre no seu melhor! Já me ri e valeu bem a pena ;)

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  2. lolol, gostei do post... eu cozinho, não todos os dias mas alguns por semana, porque gosto, porque me faz falta comida caseira e a meu jeito, porque preciso de almoço para trazer para o trabalho (sim trago marmita)... acabo por cozinhar mais do que gostaria... Tem dias que compro comida, e outros que vou a casa dos pápis e trago comida para a semana, já feita :)

    Beijinhos

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  3. Giro, giro, giro este post! Ri tanto, tanto! Muito bem! Boa!

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  4. Fartei-me de rir agora! Sou muito parecida nesse aspecto, ou seja, cozinhar porque tem de ser e o menos complicado possível, se faz favor. Às vezes bem que queria ser assim cheia de ideias e nheques, mas então...

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  5. nada melhor para recomeçar o trabalho do ano do que ler uma crónica como esta... e para mais sou totalmente solidária com o exposto pois tb tenho um fadinho do lar, que adora ir ás compras, ver o aspecto das carnes e dos peixes (onde eu nem me aproximo), usar o azeite xpto da marca vip, o vinagre de mel,,, e fazer uns petiscos fantásticos... quando p/ mim basta uma omelete k batatas fritas e uma boa salada. Bom Ano

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  6. Ai Scarlet como me fazes rir!
    Felizmente não detesto a cozinha como tu e ando sempre a fazer experiências.
    Também tive esse acontecimento no Natal, ofereceram ao marido um bacalhau inteiro. Está ali, no chão da cozinha, dentro de um saco preto do lixo, à espera que ele o corte! Sim, ele irá cortá-lo em postas!
    vidademulheraos40.blogspot.com.

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  7. Partilho da "adorável dedicação e aptidão para a cozinha"... A sério acho u desperdicio o tempo que se gasta a preparar os pratos, a cozer, a assar, god. Umas saladinhas, umas massinhas cozidas, umas sandes e umas sopinhas são verdadeiras delícias para mim...

    http://ovagoencanto.blogspot.pt/

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  8. eu cozinho. que remédio... não vou morrer à fome nem arrastar a pikena comigo, mas às vezes aborrece mesmo, pois o hôme come smp no trabalho dele (almoço e jantar) e torna-se muito chato cozinhar só para mim e pikena. =/
    Mas q já me fizeste rir com o teu post, lá isso já! beijocas

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  9. Adorei o seu texto...é a realidade de muitas mulheres que não se identificam muito com a cozinha.
    Eu detesto a frase "o que há para o jantar ?"
    Beijinhos

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  10. Para demolhar o bacalhau não precisas de o meter na água inteira, podes parti-lo às postas e metê-lo num alguidar!

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  11. Ri-me imenso com o texto.
    Não se lembraram de cortar o bacalhau em postas para depois colocar em água?

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  12. Mesmo cortado às postas não havia nenhum recipiente em casa do meu homem onde coubesse o bacalhau :D mas comemos bacalhau com grão (o menino escarlate disse que era feijão frade) e ovo cozido na noite de natal e estava muito bom!

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  13. Ri-me muito a ler este post! O bacalhau era um senhor bacalhau que até teve direito a recipiente próprio :)

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  14. Já me fartei de rir! E imaginar o teu homem a transportar o bacalhau no metro... Hilariante!

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Obrigada pelo comentário ☺