terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

tuesday tenderness

dietas

(via)

O tempo é um carro velho sem a marcha atrás*

Hoje a minha tia faz 80 anos.
A minha tia que foi minha mãe, que me criou, que me deu tanto mundo.
O tempo afastou-nos à medida que eu não cumpria os sonhos dela.
Sempre fui a menina dela, bonitinha e educada, a melhor aluna como ela queria, mas depois não escolhi os namorados perfeitos nem o curso perfeito nem tive o casamento perfeito ou a vida perfeita.
O nosso amor sofreu um rude golpe quando ela percebeu que eu não ía ser perfeita.
Por vezes foi duro crescer entre uma mãe que não me queria e uma tia que só me queria perfeita.
O meu tio já tinha desistido de mim quando me recusei a aprender violino e se apercebeu de que o meu cabelo não ía ser liso, comprido e sedoso, como a neta não me lembro de quem, que tinha o cabelo perfeito.
Salvou-me o meu pai, que sempre me amou incondicionalmente, com cabelo eriçado.
Mas a minha tia era quem me ía levar à escola, quem me ensinou a por a mesa, quem me contava mais histórias, quem cuidou de mim sempre que estive doente.
E é assustador vê-la tão velhinha, tão frágil.
O tempo é, assim, uma coisa cruel.
Os pais deviam parar de envelhecer pelos nossos 20 anos.
Devíamos ter sempre o direito a ter pais e a sermos só filhos.
O direito ao colo.
Para sempre.
Os pais nunca nos deixavam nem nunca os papeis se invertiam.
Para sempre.

above us only sky

coffee spoons & tea afternoons