segunda-feira, 13 de agosto de 2012

o tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem...

Quase ninguém fala sobre o seu desemprego no seu blog.
Generaliza-se, fala-se da questão no coletivo, despersonaliza-se o problema.
Pois a mim hoje apetece-me falar sobre o meu desemprego.
Apanhou-me de surpresa.
Houve momentos em que temi pelo meu futuro profissional, dias em que andei desconfiada, mas quando chegou foi de surpresa.
E o meu emprego definia-me como pessoa, eu gostava muito do meu emprego, era boa no que fazia e aquilo tinha-se tornado na coisa mais importante da minha vida.
E foi estranho, foi como ir dormir com o corpo todo, inteira, e acordar sem uma perna.
Tinham-me amputado parte de mim.
Depois do choque, do golpe seco que me deixou atordoada, senti medo.
Não tenho pais nem marido para me sustentarem, sou independente e mãe solteira duma gata.
Houve noites em que acordava a pensar "mas nunca mais vou terminar aquilo!" e não estava só a sonhar, era a realidade.
Depois do medo, veio a raiva e depois da raiva veio a gana*.
A gana de procurar emprego intensivamente, a gana de não ficar parada, a gana de recomeçar.
4 meses volvidos os colegas já quase não telefonam e eu não quero saber da empresa para nada.
E sinto-me livre, estranhamente livre e em paz, como alguém que se libertou duma dependência.
Já não procuro emprego com toda a gana, tenho de ser mais seletiva se pretendo alcançar o objetivo de voltar a ter um emprego a longo termo na minha área, tenho de ser mais racional.
(pelo meio falei com gente de empresas de recrutamento que me tranquilizou, que me deu orientações e que me levantou o ego)
Sinto-me menos assustada porque já percebi que o mercado está mais recetivo a contratar pessoas com mais de 35 anos.
Sinto-me revoltada e deito as mãos à cabeça cada vez que percebo os salários que estão a oferecer.
Mas sobretudo dei tempo a mim mesma.
Tempo para esquecer, tempo para lamber as feridas e realinhar os chakras, tempo para me redescobrir.
Não tenho saudades do meu emprego.
Tenho saudades do futuro, do dia em que vou voltar a vestir a camisola e a dar tudo por tudo.
Mantenho-me alerta, com os sentidos e a intuição e a gana a 200%.
O medo transformou-se em coragem, mas esta não deixa de ser uma vida a conta gotas, em que o tempo se esvai muito depressa.
Fui recusada na primeira entrevista a que fui, mas aprendi com os erros e fui selecionada na próxima.
(mas nem vos vou contar qual era a proposta...)
Fiz psicotécnicos e levei uma abada duma míuda que eu própria escolheria se fosse a entidade empregadora.
(bolas estou mesmo destreinada, eu fazia estas coisas com uma perna às costas)
Na oportunidade seguinte cheguei à fase final.
E é assim, um percurso de obstáculos, feito de trambolhões e de sacudir o pó e voltar à pista.
Mantenho-me ocupada a fazer coisas de que gosto.
Não tenho saudades nenhumas de me levantar cedo, do trânsito, do stress, da rotina.
Mas sei que esses dias vão voltar.
Porque me dou em tudo o que faço, um dia, outro emprego, voltará a ser parte de mim.
Tenho a certeza.

{*carregar para ver o significado}

10 comentários :

  1. A perda de um emprego é como muitas das circunstâncias duras e inesperadas da vida, uma oportunidade de renovação. E é bem como descreves, depois do primeiro impacto (tipo soco no estômago), passa-se por muitas fases, até chegar à indiferença. Porque a perda de um emprego é, como muitas das circunstâncias duras e inesperadas da vida, também uma oportunidade para sabermos que está de facto na nossa vida e permanece, para além das circunstâncias. E para saber com quem nos apetece contar.
    E para testar os nossos limites e alargar os horizontes e traçar novas metas. Isso para quem luta, claro! Que para quem gosta de achar que o universo conspira contra si, tudo são excelentes motivos para desmotivar e encontrar desculpas para viver em auto comiseração.
    Claro que vais voltar a ter um emprego ou, melhor ainda, um trabalho que te preencha e realize! Porque o Universo não conspira contra ninguém, mas ajuda quem luta e não desiste! ;)

    Kisses!

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  2. Os meus sentimentos em palavras tuas...obrigada pelo desabafo que também é meu.

    Vou partilhar.

    B♥

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  3. No meu caso, o meu emprego não define quem eu sou, é apenas aquilo que eu faço. Eu sou muito mais que o meu emprego!

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    1. Eu falei de emprego, mas eu tinha um trabalho :) sempre tive a sorte de fazer aquilo de que gosto... e isso é muito mais do que ter um emprego.

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  4. não sei o que é desemprego, quando acabei o meu curso, esperei 2 meses para começar a trabalhar. sei que é uma sombra que nos persegue a qualquer um e ninguém, por estes dias, está livre que isso nos aconteça. no entanto costumo dizer aos colegas, se isso me acontecer vai ser a melhor oportunidade que já tive para mudar de vida. espero que consigas muito em breve encontrar essa parte de ti.

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  5. Scarlet adorei este teu texto. Não foi emotivo. Foi real, verdadeiro, promissor e de uma mulher que sabe o que quer e que não está deprimida, que não está a chorar num canto. Força! E quando venceres conta-nos que estaremos cá para te aplaudir!

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  6. Da ultima vez estive quase 2 anos desempregada e já estava desesperada. Agora estou á procura de um novo desafio, mas como sabes, longe de PORTUGAL!

    Em breve conto TUDO!

    Mas este país está de mal a pior nesse aspecto :(

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  7. Ai, Scarlet se soubesses como este texto mexeu comigo. Como me fez pensar e repensar e sobertudo, acreditar. Obrigada. Nas tuas palavras encontrei momentos que já passei e estou a passar. E soube-me bem a tua partilha e o teu texto tão verdadeiro.

    bjs

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  8. Este foi realmente um texto escrito numa perspetiva de pura análise duma determinada situação. Espero que a minha sinceridade aqui exposta ajude outras pessoas na mesma situação. Que as ajude a libertarem-se do medo de falar sobre o assunto e que as ajude a terem alguma fé e alguma força.
    E que Deus ou o karma nos ajude a todos! ;)

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  9. Já odiei, desprezei e amaldiçoei o "meu" desemprego (sim porque nos tornamos muito chegados). Passada a fase da birra e do amuanço para com o governo e a vida, voltei ao elemento básico, os chamados biscates. E estou a gostar, quem sabe num futuro próximo a coisa não se pode tornar mais séria, tipo negócio próprio :)
    Tenho uma etiqueta no blog (des)emprego que é uma das mais utilizadas :) **

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Obrigada pelo comentário ☺