sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Da condição feminina

(via)
Ontem foi o dia mundial contra a violência contra as mulheres.
Esta semana a minha amiga A. saíu para jantar e festejar o seu 40º aniversário.
Ao chegar a casa, à porta do prédio, o ex-companheiro apontou-lhe uma arma à cabeça.
Valeu-lhe o filho adolescente estar à janela, à espera, já preocupado com o facto de o pai ameaçar constantemente a mãe de morte.
A minha amiga A. está separada desde Abril.
Já perdeu 12 Kg e ganhou olheiras e insónias.
Depois do sucedido, de ver o filho lutar com o pai com uma arma na mão, chamou (finalmente) a polícia e foi registar queixa.
Na esquadra, o polícia nem o nome do atacante registou.
Apenas lhe disse que sem uma morada não podem agir e que se vir o atacante na rua lhes telefone.
A minha amiga é gira e regressava duma festa.
O polícia olhou-a de alto a baixo, num acto descriminatório silencioso.
Foi preciso o amigo duma amiga comum, também polícia, intervir para que registassem a queixa e recolhessem alguns dados, quer da queixosa quer do atacante.
Há muitos anos atrás fui vítima dum stalker, um cobarde anónimo que me fazia telefonemas indecentes para o emprego e para casa, que me seguia (sabia os meus passos, o que trazia vestido, tudo) e que chegou a ameaçar o meu pai por telefone.
Nesse dia também fui a uma esquadra de polícia para apresentar queixa.
Eu tinha 24 anos e uma saia acima do joelho.
Não passei da entrada da esquadra.
O polícia olhou-me de alto a baixo, como se a culpa fosse minha, como se eu 'as estivesse a pedir' por ter pernas e as mostrar.
Não registou a queixa.
Perguntou-me o que queria eu que a polícia fizesse.
Não sei, queria pelo menos que me ouvissem, que me aconselhassem, que me tratassem com respeito.
Fui mais tarde a outra esquadra com o meu chefe de então, porque os nervos eram tantos que me desfiz em lágrimas quando o telefone do escritório tocou e acabei por lhe contar.
A queixa foi registada e falei com uma mulher polícia que me aconselhou.
Que não mostrasse receio ao tarado, que não lhe desligasse o telefone, que o deixasse a dizer as nojices todas que quisesse e fosse beber um chá, que não lhe desse troco porque isso o ía excitar, que evitasse andar  sózinha.
O meu tio passou a ir buscar-me ao emprego.
Ficava no lado de lá do passeio, não trocávamos palavras nem olhares, entrávamos juntos no metro como se não nos conhecêssemos, caminhavámos sempre com alguma distância entre nós.
Nunca vimos nada nem ninguém suspeito e eu nunca reconheci a voz.
Segui os conselhos da polícia e o tarado ficou furioso, ameaçou que se ía vingar.
A história terminou um dia em que o tarado ligou para a minha casa a dizer que eu tinha sido atropelada à porta do emprego e que tinha dado entrada no hospital já sem vida.
(ele disse à minha mãe o meu nome completo, a roupa que eu tinha vestida, o nome e morada correctos da empresa)
E a mensagem é esta: não vale a pena só apresentar estatísticas e falar no assunto.
As mulheres continuam desprotegidas e o principal inimigo delas é a mentalidade deles.
Tenham eles farda ou não.

5 comentários :

  1. Ouvi ontem que, num estudo nacional, oitenta por cento das mulheres com mais de sessenta anos já tinham sofrido de maus tratos físicos nos últimos dois anos. Achei tão grave e preocupante.

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  2. É uma realidade muito grave. Está mesmo ao nosso lado, mas nunca sabemos como agir. Conheço um caso de uma mulher que foi vítima de violência doméstica, apresentou queixa e divorciou-se. Todos ficaram contra ela, até a família de sangue. O homem era o herói porque levava dinheiro para casa (como se o que ela ganhava, que era menos, mas era o que conseguia, não contasse para o orçamento familiar. Ainda há um longo caminho a percorrer.

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  3. Querida Scarlet, o problema do nosso sistema é que as leis são feitas por homens e aplicadas pelos homens. Com h minúsculo, mesmo. Nunca passei por uma situação idêntica à tua, mas deve-se sentir uma impotência enorme, por nada ser feito!
    E no final o melhor aconselhamento foi-te dado por uma mulher polícia... diz tudo!
    Beijinhos.

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  4. Gostei do "Don't be shy but don't be rude!"
    Infelizmente sei bem do que falas...
    Discriminação existe e não é só em termos de raças e afins!

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Obrigada pelo comentário ☺